Ban Ki-moon deixará ONU como a encontrou há 10 anos

Por 10 anos, Ban Ki-moon teve de gerenciar as principais crises do século 21 à frente da ONU.

Neste domingo (31), ele deixa o cargo de secretário-geral, que passa ao ex-premiê português António Guterres.

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Fonte da Matéria: G1 –  Marina Franco

Fonte dos Vídeos: Euronews

Copilação e Acréscimos: Paul Sampaio

DIPLOMATA CLÁSSICO

Na ONU, Ban deixa a marca de uma personalidade modesta, de pouco carisma, que para uns beirou a invisibilidade, enquanto para outros foi um dirigente tranquilo e cordial.

“Minha motivação foi fazer deste trabalho ‘mais impossível’ uma ‘missão possível’. Tenho tentado durante esses últimos 10 anos, dando todo o meu tempo, paixão e energia. Mas, francamente falando, realisticamente, eu terei que deixar muitas coisas por cumprir. Precisávamos ter um senso maior de união, maior solidariedade global e compaixão, mas não conseguimos ver isso. Sem o total apoio dos Estados-membros, tem sido muito difícil”, diz Ban em sua última entrevista como secretário-geral.

“Ao mesmo tempo, conquistamos importantes visões, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável cobrindo todos os aspectos da vida e o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas. Essas são as duas mais importantes, ambiciosas e abrangentes conquistas”, afirma.

Especialistas definem Ban como um diplomata clássico, preso a protocolos, capaz de ser um bom administrador, mas que peca ao enfrentar grandes crises humanitárias, como é a guerra na Síria. Foi considerado um secretário-geral modesto, mas que também se mostrou persistente em relação a algumas bandeiras que assumiu – a principal, em que obteve bom resultado, foi a das mudanças climáticas, com a assinatura do Acordo de Paris, em 2015.

Pesa sobre Ban a crítica de que ele não tinha a visão necessária para a amplitude do cargo.

“Ban não tinha uma visão multilateral sobre a ordem política mundial, nem sobre a ONU. Ele era um bom administrador, e é isso o que ele é depois de 10 anos”, diz ao G1 Romuald Sciora, escritor e documentarista francês que produziu filmes e livros sobre a ONU, inclusive um sobre Ban Ki-moon, chamado “Planet UN: Ban Ki Moon and the UN Today” (“Planeta ONU: Ban Ki moon e a ONU hoje”, em tradução livre).

General Ban Ki-moon cumprimenta o novo secretário-geral António Guterres Foto: AP Photo/Seth Wenig
General Ban Ki-moon cumprimenta o novo secretário-geral António Guterres Foto: AP Photo/Seth Wenig

“Não acho que Ban estava preparado por sua experiência para enfrentar os desafios [de 2007, ano em que assumiu]. Ele fez o que foi possível para ele, mas perdeu a oportunidade de ser a voz do povo na escala mundial”, diz.

O perfil diplomático do sul-coreano pode tê-lo ajudado a conquistar um acordo climático global, mas não foi o suficiente para que ele enfrentasse uma grande crise humanitária, na visão de Richard Gowan, pesquisador-diretor no centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York (NYU) e que já atuou como consultor da Secretaria da ONU.

“Ban Ki-moon é um bom homem e um diplomata muito tradicional. Seus sucessos na ONU foram no campo da diplomacia tradicional. Ele é bom em conferências, entende o protocolo diplomático. Mas não é bem preparado ou muito bom em lidar com a crise do século 21. Não sabe como mostrar liderança quando tem uma grande crise humanitária chegando”, afirma Gowan.

Entrevista com Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, em 2009

TRAJETÓRIA

Nascido em 1944, Ban cresceu em um vilarejo na Coreia do Sul ocupado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, e que recebeu ajuda humanitária de soldados americanos da ONU. Ainda adolescente, ganhou da Cruz Vermelha uma viagem aos Estados Unidos, onde se encontrou com o então presidente John F. Kennedy e decidiu que seguiria a carreira diplomática.

Fala coreano, francês e inglês – apesar de receber críticas pela imperfeição destes últimos idiomas. É casado com Ban Soon-taek, quem conheceu em 1962 durante o segundo grau e com quem tem um filho, duas filhas e três netos.

Ban Ki-moon e sua mulher Yoo Soon-taek (à direita) visitam Libba Patterson, quem Ban chama de mãe americana. Patterson o hospedou em 1962 quando esteve nos Estados Unidos pelo programa da Cruz Vermelha. Foto -UN Photo-Mark Garten
Ban Ki-moon e sua mulher Yoo Soon-taek (à direita) visitam Libba Patterson, quem Ban chama de mãe americana. Patterson o hospedou em 1962 quando esteve nos Estados Unidos pelo programa da Cruz Vermelha. Foto -UN Photo-Mark Garten

Ban se formou em relações internacionais na Universidade Nacional de Seul em 1970 e, em 1985, concluiu mestrado em administração pública na Escola de Governo Kennedy, da Universidade Harvard.

Quando foi eleito secretário-geral, o primeiro sul-coreano, era ministro das Relações Exteriores e do Comércio da Coreia do Sul. Começou na ONU em 1975, na Divisão do Ministério das Relações da Coreia do Sul e chegou a ocupar o cargo de primeiro-secretário da Missão Permanente da Coreia do Sul junto à ONU em Nova York. Também foi responsável pela ONU no Ministério das Relações Exteriores de seu país e, de 1998 a 2000, foi embaixador em Viena, na Áustria.

O então chanceler foi eleito em 2006 para substituir o ganense Kofi Annan. Em seu primeiro mandato (2007-2011), se deparou com temas importantes como o conflito no Sudão do Sul, o envio de missões de paz e o fracasso nas negociações de um acordo do clima. Para o segundo mandato (2012-2016), Ban não enfrentou candidatos adversários e o Conselho de Segurança aprovou sua reeleição por unanimidade. Foi então que teve de encarar a guerra na Síria e a maior crise de refugiados desde a 2º Guerra Mundial, entre outros temas.

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ACORDO DE PARIS

Épraticamente consenso entre os analistas internacionais que o acordo do clima de Paris, assinado em 2015 e ratificado neste ano, foi a maior conquista de Ban. Desde sua posse, o sul-coreano afirmava que as mudanças climáticas seriam uma de suas prioridades, e durante seus mandatos trabalhou com governos para alcançar um pacto global.

Ban Ki-moon celebra o acordo climático alcançado na COP 21, em 2015 em Paris, com Christiana Figueres, secretária da Convenção do Clima da ONU, Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França, e François Hollande, presidente francês. Foto: UN Photo/Mark Garten
Ban Ki-moon celebra o acordo climático alcançado na COP 21, em 2015 em Paris, com Christiana Figueres, secretária da Convenção do Clima da ONU, Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França, e François Hollande, presidente francês. Foto: UN Photo/Mark Garten

“Depois do fracasso de Copenhague [onde ocorreu a cúpula do clima] em 2009, ele não desistiu. Continuou viajando o mundo, impulsionando governos a continuar a dar andamento à diplomacia das mudanças climáticas. Isso foi importante e louvável. E também fez um bom trabalho desde a cúpula de Paris, viajando o mundo e pressionando líderes a realmente ratificar o acordo”, diz Richard Gowen.

O acordo, o primeiro pacto universal para tentar combater a mudança climática, tem como objetivo manter o aumento da temperatura média mundial “muito abaixo de 2°C”, mas “reúne esforços para limitar o aumento de temperatura a 1,5°C”, em relação dos níveis pré-industriais. É considerado um avanço histórico na agenda ambiental mundial.

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GUERRA NA SÍRIA E REFUGIADOS

Ogrande problema do diplomata sul-coreano, na visão do pesquisador da NYU, é sua falta de liderança e incapacidade de oferecer uma resposta política original às crises humanitárias, a exemplo das guerras civis no Sri Lanka e na Síria. “Ele mesmo admitiu que ele e seu escritório falharam em responder propriamente a uma crise muito séria em 2009 que foi a matança em larga escala em Sri Lanka, no fim da guerra civil no país. O sistema da ONU falhou em oferecer qualquer resposta política real para aquelas mortes”, diz Gowen.

Ban Ki-moon visita centro de acolhida a refugiados em Antenas, na Grécia, em junho de 2016. Foto - UN Photo-Rick Bajornas
Ban Ki-moon visita centro de acolhida a refugiados em Antenas, na Grécia, em junho de 2016. Foto – UN Photo-Rick Bajornas

Já a reação de Ban para a crise de refugiados – que eclodiu em 2014, mas bateu recordes nos anos seguintes – foi acertada, apesar de seus poderes como secretário-geral serem limitados para solucionar a questão.

“Ele fez a coisa certa em relação a crise dos refugiados. Realmente pressionou os países europeus e outros a assumir a responsabilidade mais seriamente. Mas a realidade é que a performance da ONU em relação à crise dos refugiados é subestimada por uma falta de real financiamento”, afirma Gowen. “Acho que a culpa seria dos países europeus”.

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CÓLERA NO HAITI

Os especialistas também avaliam que Ban errou ao demorar para admitir a participação das tropas da ONU na disseminação do surto de cólera no Haiti, que começou em 2010 e atingiu mais de 300 mil pessoas no ano seguinte. Até 2014, foram registradas mais de 8.600 mortes pela doença.

Ban Ki-moon visita abrigo temporário em Les Cayes a vítimas da passagem do furacão Matthew pelo Haiti, em outubro de 2016. Foto -UN Photo-Eskinder Debebe
Ban Ki-moon visita abrigo temporário em Les Cayes a vítimas da passagem do furacão Matthew pelo Haiti, em outubro de 2016. Foto -UN Photo-Eskinder Debebe

Um estudo publicado em julho de 2011 por autoridades sanitárias dos Estados Unidos (CDC) concluiu que a cólera, que tinha desaparecido 150 anos atrás na ilha, foi reintroduzida pelos capacetes azuis do Nepal enviados ao país durante o devastador terremoto de 2010.

Apenas em agosto de 2016, a ONU assumiu seu envolvimento involuntário na epidemia, e em dezembro Ban pediu desculpas pelo surto, apesar de não mencionar a fonte. “A ONU se arrepende profundamente pela perda de vidas e pelo sofrimento causados pelo surto de cólera no Haiti. Em nome da ONU, quero dizer muito claramente que nós nos desculpamos ao povo haitiano. Nós simplesmente não fizemos o suficiente em relação ao surto de cólera e sua disseminação no Haiti”, disse antes de reunião da Assembleia-Geral, em Nova York.

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DENÚNCIAS DE ABUSO NA ÁFRICA

Outro escândalo que impactou a ONU sob comando de Ban Ki-moon foi a série de denúncias feitas nos últimos anos de que funcionários e soldados de paz da organização, conhecidos por “capacetes azuis”, teriam cometido abuso sexual contra crianças no Sudão, na República Centro-africana e na República Democrática do Congo, entre outros países.

O sul-coreano é criticado por não impulsionar reformas no departamento das forças de paz da ONU após as denúncias de abuso.

“O departamento das forças de paz precisa de uma reforma urgente. Um secretário-geral mais forte teria, pelo menos, mostrado uma determinação para estimular essas reformas”, diz Romuald Sciora.

Capacetes azuis, usados pelas tropas de paz da ONU. Foto -UN Photo-Marco Dormino
Capacetes azuis, usados pelas tropas de paz da ONU. Foto -UN Photo-Marco Dormino
Ban Ki-Moon quer investigação de violações dos Direitos Humanos no Iémen

DIREITOS HUMANOS

Ban também é reconhecido por tomar posições em temas de direitos humanos, direito das mulheres e desenvolvimento, e por apoiar movimentos pró-democracia no Norte da África e no Oriente Médio, que ficaram conhecidos por Primavera Árabe.

Trabalhou pelo fim da violência contra as mulheres e pela a educação de meninas em países em desenvolvimento. Durante seu primeiro mandato foi criada a ONU Mulheres, agência que trabalha pela igualdade de gênero nos países membros. Internamente, nomeou mais de 150 mulheres para cargos de alto nível na ONU, um número considerado alto.

Ban Ki-moon marcha em Nova York no Dia Internacional da Mulher. Foto - UN Photo-Devra Berkowitz
Ban Ki-moon marcha em Nova York no Dia Internacional da Mulher. Foto – UN Photo-Devra Berkowitz

Também atuou pelos direitos dos gays, e reconheceu casamentos de funcionários homossexuais da organização, oferecendo aos casais os mesmos benefícios do que os heterossexuais tinham direito.

A defesa dos direitos LGBTs foi motivo de orgulho para ele, segundo algumas autoridades da organização, mas provocou oposição de alguns países-membros. Segundo a ONU, ser homossexual é crime em pelo menos 73 países.

Para Sciora, Ban se saiu bem ao demonstrar forte apoio ao desenvolvimento na África, mas perdeu uma oportunidade de usar sua voz para combater a desigualdade entre países.

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ERA TRUMP

fim do mandato de Ban coincidiu com a eleição do republicano Donald Trump nos Estados Unidos. Lidar com um presidente que já se manifestou ser cético quanto às mudanças climáticas e que considera dar o cargo de secretário de Estado adjunto a um crítico feroz da ONU (o diplomata John Bolton), será o grande desafio que a organização terá com seu novo secretário-geral.

Trump, ao contrário de Obama, apoia os radicais judeus de seu país, e o Estado de Israel que faz assentamentos em terras palestinas, e que recentemente protagonizou um genocídio na Faixa de Gaza.

Ban Ki-moon fala ao telefone com o presidente eleito nos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: UN Photo/Eskinder Debebe
Ban Ki-moon fala ao telefone com o presidente eleito nos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: UN Photo/Eskinder Debebe
“O que temos que entender é que infelizmente a ONU não é mais um grande ator político. O mundo está funcionando por organizações como o G8 e o G20. António Guterres terá de lutar para tentar retomar parte do que deveria ser o lugar da ONU em nosso mundo desorganizado”, afirma Sciora.

Quanto ao futuro de Ban, especula-se que ele aspire à presidência de seu país.

Uma pesquisa feita antes do afastamento da presidente Park Geun-hye o aponta como o segundo favorito dos eleitores. Em entrevista coletiva no dia 16 de dezembro, Ban deixou no ar a possibilidade de se candidatar:

“Considerarei seriamente o que posso e devo fazer pelo meu país”, disse.

Ban Ki-moon

반기문
潘基文

Wikiwand

ban-ki-moon-onu
8º Secretário-Geral da ONU

Período de 1 de janeiro de 2007 – presente
Antecessor(a) Kofi Annan
Sucessor(a) António Guterres
33º Ministro de Relações Exteriores e Comércio da Coreia do Sul
Período de 17 de janeiro de 2004 até 10 de novembro de 2006
Antecessor(a) Yoon Young Kwan
Sucessor(a) Song Min-soon
Vida
Nascimento 13 de junho de 1944 (72 anos)
Eumseong, Chungcheong do Norte, Coreia Japonesa
Nacionalidade Coreia do Sul sul-coreano
Dados pessoais
Alma mater Universidade Nacional de Seul (B.A.)
Universidade de Harvard (M.A.P.)
Cônjuge Yoo Soon-taek
Religião nenhuma afiliação pública

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