Guimarães Rosa – Escritor, Médico e Diplomata

“O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita.”

“Saudade é ser, depois de ter.”

“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.”

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

“As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

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João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de junho de 1908Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967) foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, além de ser o segundo marido de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa[1], conhecida como “Anjo de Hamburgo”.

Foi também médico e diplomata.[2]

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro.

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A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas[3].

Biografia

Foi o primeiro dos seis filhos de Florduardo Pinto Rosa (“Flor”) e de Francisca Guimarães Rosa (“Chiquitita”).

Começou ainda criança a estudar diversos idiomas, iniciando pelo francês quando ainda não tinha 7 anos, como se pode verificar neste trecho de entrevista concedido a uma prima, anos mais tarde:

Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

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Ainda pequeno, mudou-se para a casa dos avós, em Belo Horizonte, onde concluiu o curso primário. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, mas logo retornou a Belo Horizonte, onde se formou. Em 1925 matriculou-se na então “Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais”, com apenas 16 anos[3].

Em 27 de junho de 1930 casou-se com Lígia Cabral Pena, de apenas 16 anos, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes.

Ainda nesse ano se formou e passou a exercer a profissão em Itaguara, então município de Itaúna (MG), onde permaneceu cerca de dois anos. Foi nessa localidade que passou a ter contato com os elementos do sertão que serviram de referência e inspiração a sua obra[4].

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De volta de Itaguara, Guimarães Rosa serviu como médico voluntário da Força Pública (atual Polícia Militar), durante a Revolução Constitucionalista de 1932, indo para o setor do Túnel em Passa-Quatro (MG) onde tomou contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, naquela ocasião o médico-chefe do Hospital de Sangue.

Posteriormente, entrou para o quadro da Força Pública, por concurso.

Em 1933 foi para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Aprovado em concurso para o Itamaraty, passou alguns anos de sua vida como diplomata na Europa e na América Latina[2].

No início da carreira diplomática, exerceu, como primeira função no exterior, o cargo de Cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942.

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No contexto da Segunda Guerra Mundial, para auxiliar judeus a fugir para o Brasil, emitiu, ao lado da segunda esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, mais vistos do que as cotas legalmente estipuladas, tendo, por essa ação humanitária e de coragem, ganhado, no pós- Guerra, o reconhecimento do Estado de Israel.

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Guimarães Rosa (João) ao lado da segunda esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (Ara).

Aracy é a única mulher homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, no Yad Vashem que é o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.

No Brasil, em sua segunda candidatura para a Academia Brasileira de Letras, foi eleito por unanimidade (1963).

Temendo ser tomado por uma forte emoção, adiou a cerimônia de posse por quatro anos. Em seu discurso, quando enfim decidiu assumir a cadeira da Academia, em 1967, chegou a afirmar, em tom de despedida, como se soubesse o que se passaria ao entardecer do domingo seguinte: “…a gente morre é para provar que viveu.”[5]

Faleceu três dias mais tarde na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de novembro.

Seu laudo médico atestou um infarto, porém sua morte permanece um mistério inexplicável, sobretudo por estar previamente anunciada em sua obra mais marcante — Grande Sertão: Veredas —, romance qualificado por Rosa como uma “autobiografia irracional”[4].

Talvez a explicação esteja na própria travessia simbólica do rio e do sertão de Riobaldo, ou no amor inexplicável por Diadorim, maravilhoso demais e terrível demais, beleza e medo ao mesmo tempo, ser e não-ser, verdade e mentira, estar e não estar.

Diadorim-Mediador, a alma que se perde na consumação do pacto com a linguagem e a poesia.

Riobaldo (Rosa-IO-bardo), o poeta-guerreiro que, em estado de transe, dá à luz obras-primas da literatura universal.

Biografia e ficção se fundem e se confundem nas páginas enigmáticas de João Guimarães Rosa, desaparecido prematuramente aos 59 anos de idade, no ápice de sua carreira literária e diplomática[2].

Foi sepultado no panteão da Academia Brasileira de Letras no Cemitério de São João Batista na cidade do Rio de Janeiro.

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Citações

  • “O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita.”

citado em “Relembramentos, João Guimarães Rosa, meu pai: João Guimarães Rosa, meu pai” – Página 27, de Vilma Guimarães Rosa – Publicado por Nova Fronteira, 1983 – 457 páginas

  • Saudade é ser, depois de ter.”

citado em “Rosiana: uma coletânea de conceitos, máximas e brocardos de João Guimarães Rosa” – Página 68, de João Guimarães Rosa, Paulo Rónai – Publicado por Salamandra, 1983 – 93 páginas

  • “O amor é sede depois de se ter bem bebido.”

Noites do sertão: “Corpo de Baile” – Página 61, de João Guimarães Rosa – Publicado por J. Olympio, 1965 – 251 páginas

  • “Esperar é reconhecer-se incompleto.”

Tutaméia: terceiras estórias – Página 38, de João Guimarães Rosa – Publicado por Livraria J. Olympio, 1969 – 201 páginas

  • “Infelicidade é questão de prefixo.”

Tutaméia: terceiras estórias – Página 76, de João Guimarães Rosa – Publicado por Livraria J. Olympio, 1969 – 201 páginas

  • “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muitos vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

entrevista a Giinter Lorenz, em janeiro de 1965, citado em “Uma cantiga de se fechar os olhos –“: mito e música em Guimarães Rosa – Página 74, de Gabriela Reinaldo – Publicado por Annablume, 2005 ISBN 8574195693, 9788574195698 – 239 páginas

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Grande Sertão Veredas

  • “Mas quem é que sabe como? Viver… o senhor já sabe: viver é etcétera…”

Grande sertão: veredas – Página 90, de João Guimarães Rosa – Publicado por J. Olympio, 1958 – 571 páginas

  • “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

Grande sertão: veredas – Página 16, de João Guimarães Rosa – Publicado por J. Olympio, 1958 – 571 páginas

  • “A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.”

Grande sertão: veredas – Página 57, de João Guimarães Rosa – Publicado por J. Olympio, 1958 – 571 páginas

  • “Eu eu? Eu eu?”

Grande sertão: veredas – Página 82, de João Guimarães Rosa – Publicado por J. Olympio, 1958 – 571 páginas

  • “A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimentos, uns com os outros acho que nem se mistura.”

Grande sertão: veredas – Página 114, de João Guimarães Rosa – Publicado por Editora Nova Fronteira, 2005 – 624 páginas

  • ” Mire veja: sabe por que é que eu não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro.”

Grande sertão: veredas – Página 160, de João Guimarães Rosa – Publicado por Editora Nova Fronteira, 2005 – 624 páginas

  • “Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do macio do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”

Grande sertão: veredas – Página 237, de João Guimarães Rosa – Publicado por Editora Nova Fronteira, 2005 – 624 páginas

  • “O que tivesse de ser, somente sendo. Não era nem o Hermógenes, era um estado de lei, nem dele não era, eu cumpria, todos cumpriam.”

Grande sertão: veredas – Página 225, de João Guimarães Rosa – Publicado por Editora Nova Fronteira, 2005 – 624 páginas

  • “Ao que naquele tempo, eu não sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder – por isso matava.”

Grande sertão: veredas – Página 362, de João Guimarães Rosa – Publicado por Editora Nova Fronteira, 2005 – 624 páginas

  • “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
  • “As pessoas não morrem, ficam encantadas.”
  • “Passarinho que se debruça – o voo já está pronto!”
  • Pão ou pães é questão de opiniães.”
  • “Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça dos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”
  • “Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.”
  • “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”
  • “Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?”
  • “”Vida” é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa. Cada dia é um dia.”
  • “O senhor não esteve lá. O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugúmem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua ideia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?”
  • “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”
  • “Viver é negócio muito perigoso.”
  • Raiva tampa o espaço do mêdo, assim como do mêdo raiva vem.”
  • “Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras.”

Manuelzão e Miguilim

  • “Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!”
  • “- Dito, eu às vezes tenho uma saudade de uma coisa que eu não sei o que é, nem de donde, me afrontando…”
  • “E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma idéia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume – quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: – ‘Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!'”
  • “Um dia, tempos, Tio Terêz o levara à beira da mata, ia tirar taquaras. A gente fazia um feixe e carregava. ‘- Miguilim, este feixinho está muito pesado para você?’. ‘- Tio Terêz, está não. Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado…’ “

A Terceira Margem do Rio

  • “Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rioa dentro — o rio.”

Sobre

  • “Ele é um ícone da língua portuguesa, inventa o idioma ao mesmo tempo que constrói seus personagens. Não cheguei a ter dúvidas. Ela faz parte da minha vida pessoal. Guimarães Rosa é um profundo conhecedor da alma humana e o livro tem um diálogo com a morte, a coragem, os desejos. Algo que te dá mais intimidade contigo mesmo”

Lessa, sobre Grande Sertão: Veredas. http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/leimprensa.php? id=70133

Atribuídas

citado em “Guimarães Rosa” – página 89, Eduardo de Faria Coutinho – Civilização Brasileira, 1983 – 579 páginasentrevista a Gúnther W. Lorenz como citado in: Caderno de fogo: ensaios sobre poesia e ficção – Página 60, Carlos Nejar – Escrituras Editora, 2000, ISBN 858630378X, 9788586303784, 135 páginas

Veja também

Referências

  1. Ir para cima↑ http://www.germinaliteratura.com.br/ pcruzadas_guimaraesrosa_ago2006.htm

 

Guimarães Rosa

Fonte das Citações: Wikiquote

Fontes Biográficas: Wikiwand

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Nascimento 27 de junho de 1908
Cordisburgo,  Minas Gerais
Morte 19 de novembro de 1967 (59 anos)
Rio de Janeiro, Guanabara Guanabara
Nacionalidade  brasileiro
Alma mater Universidade Federal de Minas Gerais
Ocupação Escritor, médico, diplomata
Prémios Prêmio Machado de Assis 1961
Prêmio Jabuti 1993
Gênero literário Romance, conto Prosa
Movimento literário Modernismo
Magnum opus Grande Sertão: Veredas

O Amor, segundo Guimarães Rosa

Revista Época – Eliane Brum (Setembro de 2008)

João Guimarães Rosa escreveu 107 cartas e 44 cartões-postais, bilhetes e telegramas para a grande companheira de sua vida, Aracy Moebius de Carvalho. A pesquisa deste acervo, que se estende de 24 de agosto de 1938 a 18 de agosto de 1960, é realizada por duas estudiosas da obra do escritor, Neuma Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará, e Elza Miné, da Universidade de São Paulo. Elas preparam uma biografia de Aracy, que deverá ser lançada ainda no centenário de seu nascimento, que se encerra em 20 de abril.

A correspondência amorosa revela a presença central de Aracy nas várias dimensões da vida do escritor. As cartas contêm paixão, mas também muita cumplicidade. Nos 30 anos em que Rosa viveu com Aracy, ele produziu toda a sua obra literária. Confira trechos inéditos de cartas de amor de “Joãozinho” para “Ara”:

Romance com pitadas de humor:

“Amor adorado, Felicidade da minha vida!

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Nem era preciso que você me falasse nisso de passar o meu aniversário aqui, junto do amor da minha Ara e dos olhos bonitos da minha Duselita! Acho absurdo o que você escreveu. Nem a presença da Greta Garbo, do Presidente Roosevelt, de Wally Windsor, de Rothschild, de Maurice Chevalier, de Getúlio Vargas, de Inge List, de Litsi Waldmüller, da Baronesa de Scharfenstein, do Papa Pio XI, da Zara Leander, do Delegado do Tesouro em Londres, de Yenny Yugo, de Hermann Göring, de Beata, de Miss Universo-1939, de Stalin, do Diretor da Fábrica Mercedes-Benz, de Einstein, de Cilly Feindt, de La Jana (ou Yana?), do Imperador Hirohito, de Norma Shearer, do Xá da Pérsia, das 5 irmãs Dionne, do General von Brauchitsch, de Mattos Pimentel, das 3 irmãs Kotanyi, de NINGUÉM (!) poderá ser comparado à presença do meu amor. Beijo os dedinhos dos teus pés“.

“Dr. J. Guimarães Rosa Médico

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Para a Ara:
Uso int.

Solução concentrada de amor – 5,0grs.
Extracto fluido de paciência – 30 gotas
Tintura de espírito de justiça – 2,0grs.
Hydrolato de calma suave -q.s.para 150c.c.
Te. 1 colher das de sopa, de 2/2 horas, durante 3 meses“.

“Comi ‘tagliatelli’, como comíamos no Ferrari, e pensei na Ara o tempo todo… O pior é que tomei vinho, não graduei bem a dose, e voltei logo para o hotel, dormindo cedo. No fundo, predomina em mim o natural caseiro, de ‘gatão’, como dizes, e sou quem menos se diverte, à noite. Gostaria de ver mais coisas, para poder depois contar-te, mas o Joãozinho teu é sempre o mesmo Joãozinho…” ( Paris – 20/09/1946)


Amor e literatura:

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“Espero que, ao regressares, já encontrarás o nosso Sagarana a tua espera (…) quando vires coisas interessantes ou pitorescas, vai tomando notas, que podem servir para algum próximo livro.” (Rio de Janeiro, 28/02/1946)

“Não me descrevas os belos passeios a cavalo que fizeres, deixando para contar e recontar tudo depois, quando voltares, e aos poucos, como sabes que aprecio. Podes, isso sim, é tomar notas interessantes, pois tens memoriazinha vagabundinha, e eu não quero perder detalhe, a aproveitar para outros livros que escreverei.” (08/03/1946)

“Pedir-te-ei pelo menos mais umas duas excursões, diferentes, especialmente para mim: para tomares nota das paisagens, e fornecê-las ao teu maridinho, para o nosso próximo livro (…) Houve demora, quanto ao Sagarana nosso, porque as provas estiveram extraviadas. Mas já voltaram para a gráfica; e, como estavam sem nem um erro, espero que o colosso estará pronto, por ocasião do teu regresso.” (12/03/1946)

“Parece quase certo que vou ganhar o Prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira. Segunda-feira, começarei a trabalhar nos outros livros. Sagaranacontinua ribombando, como um nouveau riche. A revista Rio trouxe uma bela nota. Aquele sujeitinho do Cruzeiro, que uma vez escreveu contra, voltou a escrever. Sempre antipático, mas voltando atrás e reconhecendo que o livro foi o melhor do ano. Meus amigos gozaram com esse espetacular recuo público (…) O sujeitinho escreveu só porque o rapaz que faz a seção estava ausente, em férias, e ele aproveitou a folga para meter o bedelho.” (11/01/1947)

“Preciso mais de você do que de aipim e de recortes do Lux-Jornal elogiando Sagarana. É verdade”. (03/02/1947)


Impressões amargas na Europa do Pós-Guerra:

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“(…) Chegamos a Berlim às 6 e meia da tarde. Agradeci a Deus que não estivesses comigo, pois a chegada foi uma das cenas mais tristes que já contemplei na vida. Ao baixar o avião, contemplávamos as imensas ruínas, o esqueleto lúgubre da grande capital, com as ruas vazias. (…) Ruas e ruas, quase desertas de povo, quase sem uma casa intacta, num ambiente funéreo, apesar da tarde estar belíssima. Já fora do centro, nas imediações do Wannsee, via-se mais gente, e mais casas preservadas, com moças, velhas, velhos e crianças, transitando. Fomos levados a um ‘Mess Club´ americano, onde ficamos hospedados. A casa, muito bonita, fora do Reichsminister Funk. (…) Imagine, querida, a minha emoção ao entrarmos na casa: vi logo a sala de jantar, com uma orquestra tocando, e o amplo terraço. Senti um baque no coração, ao recordar aquele dia que ali estivemos, e tomamos chá num restaurante bonito: a mim, no primeiro momento, pareceu-me ter sido ali, naquela mesma casa, e nem posso dizer-te o que senti! Logo depois, durante o jantar, eu me sentia sufocado, transtornado, presa de angustiosa pressão emotiva. Recordava, isto é, queria recordar, em poucos minutos, os quatro anos que vivemos naquele país; e tudo era tristeza e saudade. Perguntei ao garçon se os músicos eram alemães e se podiam tocar música alemã, em vez dos tangos argentinos com que estavam nos mimoseando. (…) encomendei um pequeno programa: Lili Marleen, Muenchen steht ein Hofbrauhaus, Sag’beim Abschied leise Servus, e outras. A saudade de ti ainda foi mais forte, ao escutar aquela canção: ´Auf der Reeperbahn um halb eins…´ nem saberia dizer-te tudo o que andou, então, no meu coração e na minha cabeça, querida minha. (…) fui de automóvel, com Luise e o Coronel Lyra percorrer a cidade. Passeio triste, pois Berlim é hoje um espectro de cidade, uma cidade espectral. Quase tudo destruído: toda a Kurfuerstendamm são duas tétricas filas de ruínas; a Embaixada destruída; o consulado, idem; o Éden Hotel, a KDW, o Adlon, o Venezia, tudo, tudo. (…) A Friedrichstrasse, a Wilhelmstrasse, nelas não sobrou casa. Nunca imaginei que pudesse sofrer tanto uma cidade tão grande. Tétrica foi a visita à Reichskarlei, ou ao que dela resta, denegrido, quebrado, incendiado, espedaçado. Enfim, não digo mais, pois seria uma infindável enumeração de ruínas. (A Luise) contou-me horrores, descreveu-me os seus sofrimentos, nos dias terríveis do fim da guerra, e depois. É muita coisa a contar-te, quando estivermos juntos.(…)

(Em Berlim) os bondinhos amarelos circulam, mas poucos. Há trens também. A miséria é tremenda. Um cigarro custa 6 marcos, e só no mercado negro. Assim, um cigarro é uma boa gorgeta, 3 cigarros uma gorgeta régia. Há gente transitando, no centro da cidade, pois aqui e ali sempre salvou-se uma casa ou um cômodo entre os escombros. Em geral vêem-se as paredes dos edifícios, destelhados, queimados, medonhos. Hoje em dia, Berlim é a capital da tristeza, das ruínas, dos mistérios. Todos têm um medo horrível dos russos, e julgam-se felizes os que podem morar nos setores inglês, francês ou americano.(…)

Como vês, foi uma excursão triste e deprimente, que me fez pensar muito. Afinal, talvez tenha sido melhor não ter podido ir até Hamburgo, pois a vista das suas ruínas me faria adoecer de tristeza, ao lembrar-me do lindo tempo que ali vivemos juntos, querida minha. (…)

Bem, meu amor, perdoe-me esta carta triste e cheia de coisas feias, mas não podia deixar de narrar-te tudo, desde já. Quando aí chegar, contarei mais coisas, do que vi e ouvi. (…)

Fiquei até com inveja, ao ver o Marinho com a mulherzinha dele: se fosse a minha Ara quem aqui estivesse chegando, Paris passaria a ser realmente, para mim, a mais bela das cidades. Infel

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