China está virando Hollywood

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Como a China fez seu mercado cinematográfico se multiplicar nos últimos anos e acabou virando uma mina de ouro para Hollywood.

Mas, como os EUA, ela também quer mostrar seus filmes ao mundo.

Fonte: G1
Reportagem: Carol Prado
Foto do topo: AP Photo/Andy Wong
Publicado em 01/02/2017

A CHINA VAI BATER HOLLYWOOD?

Provavelmente. A China vem se tornando uma potência e sua relação com Hollywood, o império do cinema americano, daria um filme daqueles cheios de cobiça, ambição e muito, muito dinheiro.

Assista ao vídeo para conhecer 5 elementos do roteiro dessa história.

NAÇÃO DE CINÉFILOS

Com economia marcada pela fabricação de quinquilharias baratas e itens das indústrias eletrônica e automotiva, que buscam mão de obra e produção a baixo custo, a China tenta mudar o roteiro da própria história. O esforço para aumentar sua força criativa, atrelada ao desenvolvimento financeiro, tem transformado o país em uma nação de cinéfilos.

Hoje, ela está em 2º lugar em bilheteria no mundo e a última estimativa dos analistas prevê que passe a ser considerada maior que os Estados Unidos já em 2018. Em 2015, a receita com venda de ingressos foi de 44 bilhões de iuanes (US$ 6,4 bilhões), com aumento de 48% em um ano. Mas dados recentes mostram que o ano passado marcou uma brusca desaceleração: o mercado cresceu só 3,7%, passando a 45,7 bilhões de iuanes (US$ 6,6 bilhões), segundo a agência estatal de imprensa, rádio, cinema e TV SAPPRFT. Nos EUA, a receita foi de US$ 11 bilhões em 2015 e US$ 11,4 bilhões em 2016.

Arrecadação do mercado cinematográfico chinês desde 2012

Arrecadação do mercado cinematográfico chinês desde 2012

Por outro lado, a China superou os EUA como o país com mais salas de cinema do mundo após aumento de 29,5% em 2016 – uma média de 26 novos espaços a cada dia. Agora são 40,9 mil. Nos EUA, são 40,7 mil. No final de 2015, quando a população ganhou uma média de 22 salas por dia, eram 31,6 mil.

“Os chineses não querem dominar só uma ponta da atividade. Eles querem investir no conteúdo”, avalia Paulo Sérgio Almeida, diretor da Filme B, empresa que monitora o mercado de cinema. “Querem aprender tudo. Não querem imitar os Estados Unidos, mas fazer a indústria de Hollywood na China.”

Com mais investimento nos estúdios, a produção doméstica tem se sofisticado – e atraído mais fãs. “Lost in Thailand”, que narra a atrapalhada viagem de três chineses pela Tailândia, foi o primeiro filme local a ultrapassar a marca de 1 bilhão de yuan (o equivalente hoje a cerca de US$ 146 milhões). Bateu “Titanic” no mercado interno. Depois disso, a China emplacou outros sucessos até chegar a “As travessuras de uma sereia” (“The mermaid”, no título em inglês), um fenômeno sobre uma sereia assassina, que se tornou o mais assistido da história do país.

O IMPERADOR

Era uma vez uma empresa do ramo de imóveis residenciais que, um belo dia, decidiu diversificar sua atuação. Por trás dela, o homem mais rico de todo o reino, que viu no cinema uma oportunidade de aumentar seu império para além do oceano. Assim, Wang Jianlin, 62, se tornou o protagonista da ascensão da China sobre Hollywood.

Wang Jianlin, fundador do Wanda Group (Foto - Reuters)

Wang Jianlin, fundador do Wanda Group (Foto – Reuters)

Ele fundou, no final dos anos 1980, o Wanda Group, conglomerado que hoje opera empreendimentos imobiliários, redes de lojas, hotéis de luxo e a maior cadeia de cinemas do mundo – criada a partir da aquisição da gigante americana AMC Theaters, por US$ 2,6 bilhões, em 2012. A empresa possui 6% de todas as telas de filmes comerciais na China, e cerca de 13% nos Estados Unidos.

Na lista de aquisições também estão a fabricante britânica de iates de luxo dos filmes de James Bond e a companhia americana de mídia Legendary Entertainment – responsável por superproduções como “Jurassic world”, “Batman: O cavaleiro das trevas” e o ainda não lançado “Kong: Ilha da caveira”, mais um blockbuster que mira os chineses. Recentemente, a Wanda também comprou a produtora do Globo de Ouro e anunciou uma aliança estratégica de marketing e cofinanciamento com a Sony Pictures.

E Jianlin está longe de se dar por satisfeito. Seu próximo passo será a inauguração, em 2018, do Wanda Studios em Qingdao, peça-chave do desenvolvimento cinematográfico chinês. A empresa promete um dos maiores e mais avançados complexos de produção de longas-metragens do mundo. O projeto de mais de US$ 8 bilhões inclui 20 estúdios – um deles, submerso -, um centro de pesquisa e desenvolvimento de Imax e os maiores museus de cera e celebridades da China. Uma marina de iates, oito hotéis e um parque temático também estão sendo construídos para atrair turistas.

Projeto do complexos de estúdios que está construído pela Wanda em Qingdao, na China (Foto - Reprodução-Facebook-Wanda Studios)

Projeto do complexos de estúdios que está construído pela Wanda em Qingdao, na China (Foto – Reprodução-Facebook-Wanda Studios)

Em um evento que reúne líderes da indústria cinematográfica da China e dos EUA em Los Angeles, em outubro de 2016, o magnata traçou sua estratégia para o empreendimento: atrair negócios de Hollywood para Qingdao. Em seu discurso, ele definiu o Wanda Studios como “uma oportunidade, não um concorrente” para o mercado americano.

“Muitas empresas de cinema americanas acham que entendem a China. Mas, em meus muitos anos de experiência conversando com Hollywood, percebi que há uma falta significativa de profissionais do cinema que realmente entendem o país”, disse. “A melhor maneira de resolver esse problema é que as empresas dos EUA aumentem sua colaboração com empresas chinesas, seja por meio de acordos financeiros, acordos de produção ou colaboração em técnicas cinematográficas”.

INVASÃO ORIENTAL

Se a China se tornou uma mina de ouro, Hollywood faz de tudo para extrair o máximo. Garimpar atores chineses para suas produções com grande potencial lucrativo se tornou o novo ritual do império do cinema americano. Mesmo inseridos em pequenas participações, eles podem ajudar a cativar o público e gerar publicidade no país. Associado a um sistema de coprodução, também é possível driblar o protecionismo chinês, que só permite a exibição de 34 filmes importados por ano.

Em 2014, a Paramount Pictures escolheu Hong Kong como palco da pré-estreia mundial de “Transformers: A era da extinção”, em uma ação inédita para Hollywood. Não por acaso, é claro. A série de robôs gigantes tem um desempenho particularmente bom na China. Como se não bastasse o quarto filme da franquia ter sido filmado no país, a produção escalou a atriz Li Bingbing para o elenco e criou um reality show para encontrar os intérpretes chineses de outros quatro personagens menores.

Li Bingbing em 'Transformers - A era da extinção'; ela também participou de 'Resident evil 5 - Retribuição' (Foto - Divulgação)

Li Bingbing em ‘Transformers – A era da extinção’; ela também participou de ‘Resident evil 5 – Retribuição’ (Foto – Divulgação)

Na mesma linha vão filmes como “X-Men: Dias de um futuro esquecido” (2014), “Homem de Ferro 3”, “Truque de mestre 2” (2016), “Independence day: O ressurgimento” (2016) e “Rogue one” (2016), primeira produção derivada do universo “Star wars”.

Todos eles têm atores relativamente desconhecidos no Ocidente, com grandes bases de fãs na China. Mas o hábito de colocá-los em papéis secundários, quase decorativos, gera críticas e levou os cinéfilos chineses a criar um termo para as atrizes que funcionam como adereços nas produções americanas, são os “vasos de flores”.

Apesar do esforço de Hollywood para ganhar a simpatia dos chineses, o país ainda está longe de conseguir, dentro das telas, tanta representação quanto tem fora delas. Um estudo sobre diversidade no entretenimento feito pela Universidade do Sul da Califórnia e divulgado em setembro de 2016 mostra que os asiáticos representaram apenas 3,9% dos personagens nos 100 filmes de maior bilheteria em 2015 (veja gráfico abaixo). Segundo a pesquisa, a porcentagem é a mesma desde 2007.

Gráfico mostra diversidade étnica em Hollywood

Gráfico mostra diversidade étnica em Hollywood

Em seu discurso em Los Angeles, Jianlin, o protagonista da ascensão cinematográfica chinesa, alfinetou a tática americana. “A melhor maneira de conseguir [lucro no mercado chinês] é adicionar mais elementos chineses em filmes chineses e em blockbusters para tornar as histórias mais relevantes para o público do país. Não deve ser apenas sobre como fazer lucro, enquanto desconsideram o público chinês e seu gosto.”

NEGÓCIOS DA CHINA

Enquanto atores orientais são cobiçados para papéis menores em Hollywood, estrelas americanas correm para não virarem figurantes da ascensão chinesa. Uma delas é Steven Spielberg, que anunciou em outubro um acordo milionário com o Alibaba Group para coproduzir filmes de olho no público do país. “Levaremos mais da China aos Estados Unidos e mais dos Estados Unidos à China”, disse o diretor.

A empresa de e-commerce é outra peça importante do processo. Como a Wanda, ela decidiu voltar seus investimentos ao entretenimento, mais focada na produção de filmes do que nos negócios que envolvem a cadeia de cinemas. A primeira ofensiva foi em 2015 e envolve um outro astro de Hollywood, Tom Cruise. O grupo fechou parceria com a Paramount Pictures para participar do financiamento de “Missão: Impossível – Nação secreta”. O ator foi até a China para promover o filme ao lado de Jack Ma, fundador da Alibaba, que não poupou elogios aos seus atributos físicos.

Quem também já garantiu seu lugar no expresso rumo ao oriente é Nicolas Cage. Ele pode até não estar em uma de suas melhores fases em Hollywood, mas continua a ser um grande astro na China. Um levantamento de 2013 feito pela empresa de consultoria R3, com sede em Pequim, o coloca entre as 20 celebridades estrangeiras mais admiradas no país. No ano seguinte, arrematou de vez a simpatia dos chineses ao estrelar “O Imperador”, uma coprodução entre EUA, Canadá e China, filmada na província chinesa de Yunnan. O filme recebeu uma chuva de críticas negativas e nem teve lançamento significativo na América do Norte, mas conseguiu arrecadar US$ 3,8 milhões na China.

Nicolas Cage em cena de 'O imperador' (Foto - Divulgação)

Nicolas Cage em cena de ‘O imperador’ (Foto – Divulgação)

Na lista dos mais adorados pelos chineses, está ainda Arnold Schwarzenegger, que também acaba de fechar contrato para estrelar o drama histórico chinês “O convidado de Sanxingdui”, com previsão de estreia para 2019. Ele segue o caminho de astros como Christian Bale (de “Flores do oriente”, 2011), Adrien Brody, John Cusack (ambos de “Dragon blade”, 2015) e Bruce Willis (de “The bombing”, 2016).

Conheça, abaixo, filmes locais que se tornaram sucessos de bilheteria na China.

Campões de bilheteria na China nos últimos 5 anos

Campões de bilheteria na China nos últimos 5 anos

Mas ainda há o obstáculo da censura. No país, os filmes são submetidos à pré-aprovação de autoridades antes de chegarem aos cinemas. Fantasmas, viagens no tempo, cenas consideradas obscenas e álcool e cigarro em excesso estão entre os itens que não são bem-vindos. Histórias que distorcem a civilização e a história chinesas ou que oferecem risco à soberania do Estado também não costumam ser aprovadas. Como é difícil abrir mão do segundo maior mercado do mundo, estúdios estrangeiros muitas vezes aceitam cortar trechos ou alterar sequências de produções que desagradam os censores.

HOLLYWOOD LONGE DE L.A.

Pode ser que o futuro do cinema não esteja do outro lado do mundo, mas ele também se afasta de Hollywood. Não é segredo que muitos dos filmes com as marcas dos grandes estúdios americanos são hoje rodados fora de Los Angeles. As produções se deslocam para outros estados dos EUA e países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Inglaterra em busca de regras tributárias mais flexíveis e concessões de crédito. Embora não esteja diretamente relacionada ao fenômeno, a China pode se tornar um destino viável, com o desenvolvimento de seus estúdios.

Números divulgados em 2013 pela Film L.A., empresa que concede as permissões para filmar em Los Angeles, apontam que a produção cinematográfica diminuiu 60% na cidade nos 15 anos anteriores. O problema é que essa indústria gera mais de 190 mil empregos e US$ 17 bilhões em salários na Califórnia e, entre 1997 e 2010, o Estado perdeu 36 mil postos de trabalho relacionados com filmagens que foram parar em outros locais.

Em 2015, o faturamento de US$ 11 bilhões de Hollywood representou um recorde histórico para o império do cinema americano – feito que seria repetido em 2016. Mas os lucros se concentraram em poucos títulos – “Velozes e Furiosos 7”, “Jurassic World”, “Os Vingadores: Era de Ultron” e “Star Wars: O Despertar da Força”. Além disso, o bom resultado não significa que mais pessoas estão indo ao cinema, mas sim que os ingressos estão mais caros nos EUA – mais precisamente, subiram cerca de US$ 2 entre 2005 e 2015. “Não sei se o desenvolvimento chinês chega a ser uma ameaça, porque os americanos sabem se defender muito bem. Hollywood sempre consegue, em momentos de crise ou oscilação de capital, descobrir uma nova fonte”, pondera Paulo Sérgio Almeida, do Filme B. “Essa fonte hoje é a China.”

Como num bom blockbuster, reviravoltas sempre podem pintar. Por ora, a China está longe de ser vista como concorrente. É, em vez disso, um fator capaz de dar uma boa incrementada ou até salvar a bilheteria de algumas produções (veja abaixo). Resta saber se os veteranos da indústria saberão escrever o roteiro certo.

Filmes americanos que foram mais bem-sucedidos na China do que nos EUA

Filmes americanos que foram mais bem-sucedidos na China do que nos EUA

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